Eu sempre reclamando da vida.

 

Reclamando do por que ontem faltou por meia hora dentro da minha casa, o meu doce preferido. Reclamando da chuva que me pegou durante a volta para a casa, ou do sol que deixou meu cabelo avermelhado…

Do vento que o bagunçou, da falta, que quando se faz, o calor arde na pele. Reclamando de não ter os olhos azuis, ou fazendo birra, até porque, sempre que começa a crescer minhas unhas quebram. Reclamando que minha mãe não comprou uma roupa nova pra eu ir à festa que teve… Eu estava com o guarda roupa lotado de roupas que eu nem tinha usado ainda, mais queria comprar outra, tinha que comprar, todos iriam comprar. E mais uma vez, reclamando…

Dessa vez, da piscina não estar limpa.Enquanto eu batia o pé, com o uma tromba tão grande quanto à de um elefante, eu virei o olho, que travou em uma cena. Qual? A de uma mulher com um daqueles carrinhos que moradores de rua costumam empurrar, ele estava cheio de entulhos. Ela estava descalça, com uma bermuda rasgada, e uma camiseta suja, estava de mãos dadas a uma criança, um menino.

Ele apontava chorando para o pirulito de uma menina que caminhava de mãos dadas do outro lado da rua com a sua mãe. Ele queria um pirulito, porém pelo jeito que eles ali estavam, imaginei que não tivessem dinheiro, nem ele e nem aquela, que por dedução minha, seria a mãe dele. E pela primeira eu deixei de ser marrenta e fui até ela, confesso que com muito medo. Chegando onde ela estava perguntei a ela, mesmo tendo quase certeza do porque, o que levará a criança a chorar tanto…

Ela me respondeu que havia algumas horas que ela pedia um pirulito, até porque todas as crianças que passavam na rua tinham um, mas ela não tinha R$0,25 para comprar. Eu falei a ela que compraria um saco de pirulitos pra criança num mercadinho que tinha ali na esquina da minha casa. Eu a convidei pra ir comigo, me surpreendi ao ver que a estava convidando…

Mais continuei a caminhar com lentidão. Durante a breve caminhada, eu perguntei quase afirmando se ela eramãe da criança… Ela me respondeu sorrindo: “Se você concorda que mãe é quem cria e não quem faz, sim eu sou mãe da criança.” Sem hesitar em dizer, falei que nunca havia pensado naquilo, mais que agora que meditei ao ouvi-la eu com certeza concordava com ela, que logo em seguida me contou que encontrou a criança jogada em um terreno baldio, enrolada em panos sujos, e desde então vem cuidando da criança, cuidando do jeito dela, mais cuidando.

Cheguei ao mercado comprei o saco de pirulito como o prometido, mais comprei também outras coisas… Como por exemplo, bolacha, leite, outros tipos de doces, chinelo para os dois… O que não foi o bastante pra pagar o que ela havia me ensinado. Nunca imaginei aprender com uma moradora de rua que nem tudo é do jeito que queremos, mais mesmo no que não queremos podemos encontrar uma gota de felicidade, e se quisermos podemos transformá-la em um rio.

Tudo depende de como você investi naquela gota; do nível da simplicidade que você infiltra em seus olhos; do tamanho da humildade que você planta em seu coração. Humildade essa que será regada com as gotas da felicidade… Se você não sabe transformá-las em rios, você também não sabe cultivar. Hoje eu sei fazer de gotas rios, e uso os rios para regar o que planto em meu coração. Hoje se faz sol, eu mesma, limpo a piscina e me divirto com minhas amigas, se chove eu assisto filmes, se faz frio eu me embrulho num cobertor, se meu cabelo fica avermelhado eu vou ao salão e peço para darem um banho de brilho…

E se o doce falta… Bem… Se o doce falta eu vou ao mercadinho compro pra mim, pro menino que sempre está por aquelas redondezas com a sua mãe, e o entrego a ele, que logo me abraça com um brilho nos olhos e um sorriso nos lábios, que é a melhor maneira de retribuir o doce… E então volto pra casa, realizada, e mais uma vez aprendendo alguma coisa que por um simples ato de alguém, chega aos meus olhos me ensinando o que fazer, ou, o que não fazer.”

 

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